No texto sobre a Filosofia do Direito, Hegel retomará a noção de alteridade e amor para levar a discussão sobre a realização da liberdade que restringe, mas que não é considerada castradora dos impulsos, pois estes são na verdade racionais e universais enquanto vontade livre.
Mas é no Livro da Estética onde encontraremos suas definições sobre amor, acompanhadas de todo seu arcabouço romântico, pois que defenderá a renuncia de si, a lealdade e união das duas consciências em uma única (que é um Outro em Si). “O conteúdo do amor implica os momentos que já definimos e que constituem o conceito fundamental do espírito absoluto: o regresso tranquilo a si partir do que é de outrem. A verdadeira essência do amor consiste em suprimir a consciência de si mesmo, em esquecer – se num outro eu, com o fim de neste olvido e nessa supressão se reencontrar e se reapossar de si mesmo. Essa mediação do espirito consigo mesmo e a sua elevação a totalidade constituem o absoluto, não no sentido do que é absoluto, o conteúdo da subjetividade, que se mediatiza consigo mesmo num outro, é o espírito que só se satisfaz quando chega a saber-se e a querer-se como absoluto num outro espírito”.
Rafael Haddock Lobo reconhece aqui a violência do Eu/Mesmo sobre o Outro e o aniquilamento da alteridade, como colocado anteriormente: ‘quando estou no Outro não há mais alteridade para mim’. E indica como um dos resultados – quando a alteridade for um Outro desejante – as possibilidades do conflito entre os desejos que serão impostos em virtude dos desejos que serão nesta união em um Outro (não empírico) a determinação da identidade.
Esta estética poderia nos levar, como diz Haddock -Lobo, a reconhecer e discutir como se dá a alteridade na dialética do senhor-escravo, sobre a qual não há duvida de qual desejo prevalece e qual violência de Si é vitoriosa.
No entanto, em sua leitura, ele contrapõe a esta violência do Mesmo um espaço que o amor ocupa onde esta violência pode se dar de forma mais harmoniosa, pois um retorno tranquilo a si, que nos remete às restrições de ‘bom grado’, é feita em nome do amor. (Ainda que as restrições já tivessem naquela época um sujeito do verbo definido, a mulher).
“então o outro vive em mim e eu nele. Vivemos eu e o outro, e um estado de plenitude e igualdade, e nessa identidade pomos toda nossa alma e dela fazemos um mundo” (Hegel apud Haddock-Lobo, p. 152).
Que houvesse o elogio da renúncia a si e a enunciação da mulher como sujeito do amor mais belo – foi a tentativa de uma “redenção” hegeliana pra não dizer reafirmação desta relação também de poder (renunciar ou não).
HADDOCH-LOBO, Rafael. A Estética de Hegel e o Ideal Romântico do Amor. Disponível Online em: [http://www.oquenosfazpensar.com/adm/uploads/artigo/a_estetica_de_hegel_e_o_ideal_romantico_do_amor/n16rafael.pdf]
* trecho extraído da monografia final da disciplina Teoria das Ciências Humanas I – Filosofia USP. Título: Amor e Totalidade em Hegel – A Crítica da Violência do Mesmo.