“Um texto que colhi sobre os gatos diz assim:
A mulher que dá à luz gatos tem relações sexuais com um gato e depois com um homem. Ela fica prenhe de crianças e gatos. Quando a hora do parto se aproxima, ela procura uma especialista em fazer partos de gatos, e diz que quer que ela seja sua perteira. Vão juntas para o mato e, quando chegam a uma termiteira, sentam-se. A mulher dá à luz a gatos, e a parteira os lava. Elas o escondem na termiteira e voltam para casa. A parteira diz à mãe dos gatos que vai pilar kurukpu e sésamo para untar gatinhos. A mãe concorda. Ela unta os gatinhos com kurupku e óleo. A parteira então se vai.
No dia seguinte a mulher dá à luz uma criança, e ninguém fica sabendo que ela pariu gatos. Os gatos crescem e começam a devorar as galinhas domarido dessa mulher, que se lamenta: “Quem trouxe gatos para comer minhas galinhas?” Ele não sabe que foi sua mulher que pariu os gatos.
Esses animais são terríveis, e se um homem os vê, é muito provável que morra. Não são muitas mulheres que dão à luz gatos, só umas poucas. Uma mulher comum não pode parir gatos, só uma mulher cuja a mãe também os tenha parido.
Só duas pessoas que conheci tinham visto adandara; mas a tradição zande abunda em histórias sobre eles. Diz-se que os grandes reis do passado morreram ao ver esses gatos; penso que isso é um tributo à realeza, isto é, foi preciso mais que a bruxaria comum para matá-los. Quando se questiona a existência de tais gato, os Azande recorrem a esses casos célebres. Todo mundo está firmemente convencido de sua existência, e muita gente carrega apitos mágicos especiais contra eles.
Os Azande costumam referir-se ao lesbianismo como adandara. Dizem “É a mesma coisa que os gatos.” Essa comparação baseia-se na natureza inauspiciosa dos dois fenômenos, e no fato de que ambos são ações femininas que podem causar morte de qualquer homem que as testemunhe. Devemos referir-nos brevemente ao lesbianismo e práticas similares, que são consideradas agourentas pelos Azande. As mulheres azande, especialmente nos haréns dos príncipes, costumavam ter intercurso homossexual por meio de um falo confeccionado com raízes. Os príncipes não hesitavam em executar uma esposa que que tivesse descorbertas suas atividades homossexuais; eu mesmo conheci um príncipe que expulsou de casa algumas esposas por este motivo. Entre plebeus, se um homem descobre que sua mulher mantém relações lésbicas com outra, açoita-a e faz um escândalo. A ira domarido se deve ao temor das consequências nefastas que podem ocorrer. Os Azande, assim, falam do lesbianismo como algo maligno, do mesmo modo que bruxaria e gatos são malignos; afirmam, além disso, que as mulheres homossexuais são o tipo mesmo daquelas que dão á luz gatos e são bruxas. A geração de gatos e o lesbianismo associam o mal com as funções sexuais femininas. Observa-se, aliás, que toda utilização incomum da genitália feminina é considerada mau agouro. Considera-se um absurdo se a mulher expõe provocantemente sua vagina para o marido, e pior ainda se expõe o ânus na frente de outros homens. Uma mulher às vezes encerra uam discussão doméstica aoexibir parte do corpo aos olhos do marido. Tais costumes são aqui mencionados para que o leitor perceba que a bruxaria não é o único agente do infortúnio (…)” (Evans-Pritchard, 2005, pp 240-241).
Zande (Azande, no plural): habitante da turbulenta África Central, na região do divisor de águas do Nilo e Congo. A pátria tradicional dos Azande está cortada pelas fronteiras de três Estados: Sudão, República Democrática do Congo e República Centro-Africana.
Bibliografia
Evans-Pritchard, E. E. Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editos, 2005.

Adoro gatos