Para pensar:
O feminismo contemporâneo deve sua existência ao pós-modernismo?
“Essas imagens maternais são sempre castradoras. Ser filha/o, significa colocar em jogo a mãe. Fiquemos sem mães e filhas/os por enquanto (penso que a paternidade conceitual – como neste caso, é um furto da idéia da maternidade…). As discussões sobre pós-modernismo e feminismo são antigas. Já grandes clássicos foram escritos sobre isto. Não quero aqui resumir, reler, repassar ou fazer qualquer coisa do tipo com relação a estas discussões. Quero apenas levantar uma defesa do feminismo em relação a uma “acusação” um tanto comum (de que o feminismo seria o filho mais importante do pós-modernismo).[1]
É sempre difícil entrar nos terrenos pós-modernos. Até porque uma característica desses solos é serem nômades, desterritorializados. O espaço pós-moderno é móvel, e essa mobilidade às vezes se torna areia movediça. O pós-moderno engole tudo o que passa por seu campo-móvel. Regurgita, revê, inverte, re-joga para o social. Embora pensadores como Habermas tentem dizer que Nietzsche é o pai da pós-modernidade, acho que o pai (que também é já morto!) é um pouco mais jovem: Jean-François Lyotard. Quando evocava o termo “pós-moderno” para pensar uma condição que as pessoas viveriam no presente, Lyotard tinha algumas coisas em mente: a descrença nas metanarrativas, descrença e deslegitimação das fontes tradicionais que têm autoridade com relação ao conhecimento (como a ciência e o Estado, por exemplo), descrença em significados universalizantes, crença em uma crise da representação, que coloca em questão a diferença entre o real e o simulacro; fragmentação e descentramento das identidades sociais, culturais e individuais. Claro que Lyotard não criou a pós-modernidade, ele apenas forjou o termo, para mapear um movimento do presente.
Porém, uma dessas vertentes (que já que não acredita em significados universalizantes, não tem como acreditar em continuidades, linearidades, e coisas afins), pós-estruturalismo aparece enfatizando a questão das práticas discursivas. Dessa forma, criar um termo não é apenas criar uma palavra, mas introduzir um elemento no que se costuma chamar de real. Se Lyotard não cria a pós-modernidade, ele cria um certo tipo de condição pós-moderna, ao cunhar este termo.
Entretanto, tudo isso é muito recente. A década de 1970 é o auge da explosão dos discursos que originariam a discussão sobre a pós-modernidade. Enquanto todo esse movimento acontece de uma forma desorganizada e fragmentária – como não poderia deixar de ser um início pós-moderno – os movimentos feministas já vinham se organizando há muito tempo. Eu poderia ousar dizer que todas essas coisas que Lyotard tinha em mente ao escrever sua La condition post-moderne eram já alvo de preocupações de feministas que por muitos motivos (sobretudo políticos) não se agregariam à pós-modernidade.
Gostaria de pontuar com alguns exemplos que mostram que as feministas, das mais variadas tendências já se preocupavam com essas questões antes da discussão iniciada por Lyotard.
- A descrença nas metanarrativas. Uma metanarrativa é um tipo de explicação ou um sistema teórico que pretenda dar explicações ou descrições completas, abrangentes ou totalizantes do mundo. Autoras como Germaine Greer (1971), Kate Millet (1969), Robin Morgan (1984) e Carole Pateman (1993), em suas leituras críticas do patriarcado, têm atenção para não transformar este patriarcado criticado em uma estrutura naturalizada. Elas descrevem o patriarcado como uma estrutura forjada atendendo a alguns interesses; e que as sociedades nem sempre funcionaram assim.
Se por um lado o patriarcado, enquanto categoria de análise, aparece como uma tentativa de explicação que abranja um certo recorte das relações sociais, ele está longe de ser uma explicação totalizante do mundo ou mesmo universalizante. Vale lembrar que o livro de Greer, A mulher eunuco é de 1969/1970, que o livro de Millet, Política Sexual é do final da década de 1960, e que os livros de Morgan e Pateman não são do tipo que possamos chamar de pós-modernos, nem no estilo e nem em conteúdo, embora sejam mais recentes.
- Descrença e deslegitimação das fontes tradicionais que têm autoridade com relação ao conhecimento. Uma olhada rápida no primeiro volume de O segundo sexo nos mostra como esta postura descrente já era forte em Simone de Beauvoir (1980a). Suas discussões com a biologia, psicanálise, com o então fortemente aceito materialismo histórico desde um ponto de vista não-sacralizador evidenciam uma relação tensa entre o pensamento beauvoireano e a autoridade da ciência. Mesmo na parte tensa, denominada História, onde a autora mantém uma postura ora conservadora, ora ultra-inovadora, aponta para essa visão desconfiada com relação à ciência. E essa desconfiança já antecipa, de algum modo, uma tese cara para Michel Foucault – décadas mais tarde – de que poder e conhecimento estão intimamente imbricados em uma rede multifacetada.
- Descrença em significados universalizantes. Uma teoria tem sempre preensões de universalidade, mesmo quando seus objetos são singulares. As feministas descobriram o quanto isso é nocivo não desde o ponto de vista teórico apenas, mas também desde a perspectiva da militância. Judith Butler e Joan Scott afirmam que a teoria é um termo altamente contestado no interior do discurso feminista (Butler;Scott: 1992, xiii). Nos Estados Unidos, principalmente, mas também na França, Ásia, América Latina e África as mulheres perceberam que um movimento de mulheres como o feminismo estava apenas afirmando como “a mulher” um determinado segmento social.
Pensar as questões raciais, sociais e étnicas, tornou-se um eixo de importância fundamental para o feminismo. Ser mulher não significa a mesma coisa para uma latina, para uma africana e para uma norte-americana de classe média (cf. Davis: 1981). A afirmação “queremos o direito de trabalhar e nos sustentar”, comum entre as últimas, é praticamente sem sentido para uma latino-americana de classe pobre ou africana, por exemplo. Não há, portanto, uma teoria feminista que acolha tudo o que pode ser dito sobre a mulher ou as mulheres, e nenhum enunciado do discurso feminista tem a pretensão validade universal.
- Crença em uma crise da representação, que coloca em questão a diferença entre o real e o simulacro. A questão da representação nos remete diretamente ao duplo essência-aparência, onde a essência é o representado. Novamente de Beauvoir entra em cena. O início do primeiro volume de O segundo sexo é uma pergunta: “O que é uma mulher?” Por que se perguntar por algo que parece evidente? Por que se perguntar por algo que as ciências já decidiram o que é, que já tem toda uma fisiologia, uma psicologia e uma ginecologia? Ao interrogar o que é uma mulher, ela descobre que a mulher não tem essência. Isso para a autora tem dois motivos: o primeiro é que a mulher foi tida como “o outro” do homem, isto é, definida em função deste; o segundo, é que ninguém nasce uma mulher (De Beauvoir: 1980a).
Ser uma mulher é um processo de devir [E aqui notamos aquilo que Deleuze e Guattari chamariam de devir mulher, mais de trinta anos depois (conf Deleuze; Guattari: 1980)]. Depois desta segunda constatação, que motivaria a ausência de essência na mulher, de Beauvoir então passa a olhar algumas representações da mulher, desde um ponto de vista fenomenológico, no segundo volume do Segundo Sexo: a menina, a moça, a lésbica, a mulher casada, a mãe, a prostituta e a amante, a idosa, e por fim a mulher independente: representações de que? Representações de um devir, de um movimento, de um processo e não de uma essência (De Beauvoir: 1980b).
- Fragmentação e descentramento das identidades sociais, culturais e individuais. Talvez este seja o ponto que mais aproxima os discursos feministas aos discursos pós-modernos. Com as discussões entre as feministas e a psicanálise, acontece então a primeira grande cisão de identidades. Juliet Mitchel (1975), Simone de Beauvoir (1980a), Shulamith Firestone (1976), Gayle Rubin (1975), entre outras, saem na vanguarda desta discussão. Se, por um lado, a psicanálise naturaliza estruturas constituídas culturalmente na história, por outro lado, ela racha o sujeito.
Não há mais um sujeito único, fundante que é idêntico a ele mesmo. A subjetividade é esfacelada. A identidade da mulher se esvai pelo vento como a essência feminina (ligada à passividade, fragilidade, maternidade e outros “…ade” que tanta opressão trouxeram às mulheres). Como a passagem da mulher pelo Édipo é já sempre problemática, a subjetividade dela será sempre marcada por uma busca irrefreada daquilo que ela é ciente de não ter (enquanto o homem também não tem, mas tem a ilusão de possuir): o falo/poder. Críticas marxistas, existencialistas e pós-estruturalistas no interior dos discursos feministas, deram outros rumos a esta discussão, mas como saldo de tudo isto, sobrou um sujeito fragmentado, um sujeito historicizado, um sujeito que anseia por ser nômade (quando já não o é!).
Passados esses pontos, podemos ver que não há motivos para afirmar que o feminismo deve sua existência ao pós-modernismo. Há, entre os dois, uma relação de amizade e problematização mútuas. Seguramente, poderíamos afirmar que o pós-estruturalismo, e o pós-modernismo em geral, devem muito ao feminismo. Muito das quebras de evidências, certezas, do abalo à verdade estabelecida como eterna, a-histórica e imutável se deve ao esforço incansável de mulheres que buscavam outros espaços para si mesmas na sociedade.”
[1] Ouvi de um professor de filosofia que participava de um seminário sobre corpo e significações sociais no Instituto de Medicina Social da UERJ que “o feminismo contemporâneo deve sua existência ao pós-modernismo…” Esta afirmação foi o motivo de minha investigação para este texto, de vez que aparentemente todos concordaram com esta afirmativa.
Autora: Valeska Wallerstein
Parte de um artigo pulibicado na revista Estudo Feministas de Jan-Jun de 2004
http://www.unb.br/ih/his/gefem/labrys5/textos/valeskafeminismo.htm
Bibliografia
BIRULÉS, Fina. 1992. Filosofía y Género. Pamplona: Pamiela Argitaletxea.
BRAIDOTTI, Rosi. 1994. Nomadic Subjects. Embodiment and Sexual Difference in Contemporary Feminist Theory. New York: Columbia University Press, 1994.
BUTLER, Judith. 2003. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
____; SCOTT, Joan W. (eds.). 1992. Feminists Theorize the Political. New York/London: Routledge.
DAVIS, Angela. 1981. Women, Race and Class. New York: Vintage Books.
DE BEAUVOIR, Simone. 1980a. O segundo Sexo. Vol 1. Fatos e Mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
____.1980b. O segundo sexo. Vol2. A experiência vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. 1980. Mille plateaux. Paris: Éditions de Minuit.
FIRESTONE, Shulamith .1976. A dialética do sexo. Rio de Janeiro: Labor do Brasil.
FOUCAULT, Michel. 1988. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal.
____. 1990. A história da Sexualidade 1- A vontade de Saber. Rio de Janeiro: Graal.
FRIEDAN, Betty. 1971. A mística feminina. Petrópolis: Vozes.
GARRETAS, María-Milagros Rivera. 1998. Nombrar el mundo en femenino. Pensamiento de las mujeres y teoría feminista. Barcelona: Icaria.
GILLIGAN, Carol .1982. Uma voz diferente. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos.
GOULD, Carol C. (ed.). 1997 Gender – Key Concepts in Critical Theory. New Jersey: Humanities Press International.
GREER, Germaine. 1971. A mulher eunuco. São Paulo: Artenova.
HARAWAY, Donna J. 1991. Simians, Cyborgs and Women. The Invention of Nature. New York: Routledge.
HARDING, Sandra. 1986. The Science Question in Feminism. Ithaca, NY: Cornell University Press.
hooks, bell. 1984. Feminist Theory. From Margin to Center. Boston: South End Press.
HUTCHEON, Linda. 1991. Poética do pós-modernismo: História – Teoria – Ficção. Rio de Janeiro: Imago.
KRISTEVA, Julia. 1987. Historias de amor. México DF: Siglo XXI.
____. 1988. El lenguaje. Ese desconocido. Madrid. Editorial Fundamentos.
____. 2000. Sentido e contra-senso da revolta. Poderes e limites da Psicanálise I. Rio de Janeiro: Rocco.
MILLET, Kate. 1969. Sexual Politics. London: Hart-Davis.
MITCHELL, Juliet. 1975. Psychoanalysis and Feminism. Harmondsworth: Penguin Books.
MORGAN, Robin. 1984. Sisterhood is Powerful. New York: Anchor Press.
PATEMAN, Carole. 1993. O contrato sexual. Rio de Janeiro: Paz e Terra.
RUBIN, Gayle. 1975. The Traffic in Women: Notes on the “Political Economy” of Sex. In: Reiter, Rayna (ed.). Toward an Anthropology of Women. New York, London: Monthly Review Press.
Bom dia Valeska,
Estou fazendo uma monografia sobre o discurso feminista nas letras dos funks, escritas por mulheres, e me deparei com o seu artigo, interessantíssimo, me trouxe várias reflexões sobre o assunto.
Parabéns pela matéria.
Shirlei.
Olá Shirlei!
Este blog não é da Valeska. Apenas li este texto, achei importante a discussão e coloquei aqui no blog. Então pode ser que a Valeska não leia os seus elogios…
Interessante o tema da sua monografia. Gostaria de ler um artigo seu sobre isso. Quem sabe não poderiamos publicar aqui tb =)
Boa sorte!
beijos
Mari
Oi Mar!
Obrigada! Estou em fase inicial de escrita, assim que ficar pronto envio uma cópia.
Li alguns artigos seus e os achei interessantíssimos, leituras como essas nos ajuda a refletir sobre o nosso papel na sociedade.
Beijos,
Shirlei.