Na última quinta-feira estive presente na mesa “Revolução Sexual” da IV Semana de Ciências Sociais da USP: Maio de 68 (40 anos).
Tinha a esperança de conseguir informações valiosas para um post que estava preparando. Aliás, quando li os nomes das professoras que estariam nesta mesa discutindo revolução sexual, achei que esta seria a solução do meu problema.
Desde que a entrevista com Edgar Morin foi publicada na Folha de São Paulo, tenho procurado mais a repeito da história do Feminismo e o Maio de 68. Procurei na internet, procurei na biblioteca da USP e também na base JSTOR. Quase não achei nada e o que achei não menciona este fato como um marco.
Portanto, eu já deveria ter desconfiado.
Na quinta-feira, ao inciar suas falas, as três professoras avisaram de ante-mão que não eram especialistas em Maio de 68. E que nenhuma delas negava todo o movimento e os acontecimentos anteriores à esta data. Isto quer dizer que elas não enxergam este fato histórico como data referência de mudanças. Mas não quer dizer que não foi, pode ser que não tenha sido ou que há poucos estudos sobre esta relação. De qualquer maneira vou escrever mais pra frente um post sobre o que eu pesquisei até agora.
Sobre a mesa em si:
Confesso que anotei poucas coisas e não me sinto a vontade para escrever sobre. Porém, de um modo geral, falaram de um novo vocabulário sexual a partir de então. Falaram também do reconhecimento do prazer sexual da mulher e de uma libertinagem que não se referiu à orientação sexual ou à escolha, mas a um modo de vida subversivo.
Passaram pelas questões das lutas d@s homossexuais e escolheram metodologicamente perpassar a história para vislumbrar o movimento anterior ao fato debatido, e isso acabava por levar a “esbarrar” no Maio de 68. Apontaram consequências, como o movimento GLBT, e no final discutiram a atualidade.
As perguntas do público pareciam ávidas por discussão sobre o movimento feminista. Mas as professoras não tiveram tempo e nem era a proposição da mesa ser algo tão focado.
Assim, acabei de ouvir as respostas, e subi para estudar a Ética à Nicomaco de Aristóteles. Mas um comentário da professora Heloisa Buarque de Almeida me fez pensar bastante. Não é sobre a revolução sexual; como disse, as perguntas foram bastante desfocadas com relação ao tema da mesa.
Em resposta a uma pergunta sobre a cobrança que se coloca para que a mulher seja: boa profissional, boa mãe, boa dona-de-casa e boa amante, além de bonita e bem cuidada, a professora disse: “Estou grávida e não acho que este filho é responsabilidade somente minha, mas minha e do meu marido.” Logo veio a advertência do púbico: “Mas você tem que amamentar“. E a professora devolveu: “Amamentar pode se tornar uma armadilha, não estou aqui manifestando contra a amamentação, meu primeiro filho foi amamentado até os dez meses.”
Esta colocação veio de encontro à alguns pensamentos meus. Acredito sim que se deva amamentar o quanto puder, o leite materno é a melhor coisa que existe. Mas para que as mulheres o produzam em abundância é necesário um ambiente calmo, tranquilo. Não é sempre que isto ocorre, principalmente quando as mães voltam a trabalhar antes do período indicado de seis meses, que também designa a falta de tempo para amamentar. Mas sabemos que muitas mulheres trabalham sem carteira assinada, de maneira informal, o que não garante o direito à licença maternidade. A mãe não pode se tornar uma vilã porque não pode amamentar. É neste sentido que eu vejo a armadilha que é construída, lembrada pela professora Heloisa. Achei uma afirmação bastante corajosa da parte dela.
Ontem deixei uma pergunta em uma comunidade do orkut (Feminismos e Feministas): “aleitamento materno pode se tornar uma armadilha?”
deixei em aberto para uma discussão no blog ou lá, preferiram lá, mas acredito que possa ser interessante ler opiniões destas pessoas junto com o post. Coloco os comentários como anônimos, exceto o da Vilma que já
autorizou:
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Vilma:
E o capitalismo está preocupado com forma que nós, mulheres temos que dar conta da família e trabalho?
Me disseram que na Suécia a licença pós-parto pode ser estendida ao pai, desde que o casal faça essa opção.
Os cuidados iniciais podem ser do pai, também.
Isso porque a mulher também tem que mostrar eficiência profissional …
Aqui no Brasil, queremos filhos saudáveis mas a reponsabilidade é das mães… com campanhas e tudo.
Leite materno salva crianças!
E isso imposto a mulheres que não podem, muitas vezes nem parar de trabalhar no pós-parto!
Vai da consciência de suas patroas e patrões…
Apesar de haver Lei que obriga às empresas com acima de 30 funcionários a ter local adequado a amamentação…nem todas o possuem…
http://g1.globo.com/Noticias/Economia_Negocios/0,,MUL152380-9356,00.html
Anônimo 2)
É uma armadilha, sim.
E vou dizer pk.
Estão elegendo o aleitamento materno à categoria de “Deus”.
Sabemos, no entanto, k a licença-maternidade dura apenas 04 meses.
Então, fica a pergunta: o aleitamento é realmente tão importante kto dizem?
Ou está se criando uma celeuma imensa visando unicamente “colocar a mulher no seu devido lugar”?
Sim, pk mulher k não amamenta é uma vilã inescrupulosa!
No entanto, essa mesma vilã tem licença-maternidade de apenas 04 meses, e não sejamos hipócritas: kem amamenta depois de voltar ao tabalho?
Nem 10%, pk é impossível conciliar.
Então, o k resta é a certeza da hostilização contra as mulheres, hostilização essa k é feita de todas as formas possíveis; a amamentação como deusa da maternidade e da criança “saudável” é só mais uma forma.
Mulher k não amamenta “condena” filho à todos os males de saúde.
De minha parte, os FATOS destroem os ARGUMENTOS: nem eu nem meu irmão fomos amamentados, pk minha mãe não produziu leite.
Conheço tantas crianças, hj adultos, k não foram amamentados, k nem dá para contar.
E o FATO k permanece é k NENHUM deles teve NENHUM dos problemas de saúde k tanto alardeiam ter as crianças k não foram amamentadas.
Tem algo errado nessa conta: ou eu sou cega, ou a falta de amamentação não é tão nefasta assim, se é k é nefasta.
FATO é k crianças k têm uma vida menos favorecida, com saneamento básico, vacinas, boa alimentação, NÃO ficam doentes nunca, nem kdo pekenas – e as classes mais favorecidas mtas vezes não amamentam; então, como seus filhos são saudáveis?
Se a falta de amamentação produz doenças, como as classes mais favorecidas, k são as k menos amamentam, produzem filhos tão saudáveis?
Há uma enorme contradição aí, contradição essa k é facilmente explicada: inventou-se mais uma forma de estigmatizar a mulher, e as mulheres caem, feito patinhos, mais uma vez.
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Vilma:
Não podemos negar as vantagens da amamentação…
Alimento prontinho, quentinho , saudável, de graça, imunológico, prático, portátil, e de quebra o afeto.
Qual é o bebê que não gosta do colinho da mãe?
Ficam felicíssimos!
Eu amamentei apenas a minha filha até bem tarde.
Ou seja, ao sair para trabalhar amamentava, deixava na creche e ao voltar amamentava de novo …
Mas todoa sabemos das dificuldades de muitas mulheres… desde emocionais a nutricionais, mesmo.
Para as camadas mais pobres, então, é um santo alimento, sim…mas cadê condições para que estas mulheres possasm amamentar?
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Eu)
É isso mesmo que eu queria colocar, Vilma. O leite materno tem todas as qualidades que @s médic@s dizem, e é inclusive mais barato, do ponto de vista “absoluto”. E eu incentivo. Porém, tornar as mães que não amamentam as vilãs e irresponsáveis da história é mais fácil do que analisar o contexto sócio-econômico a que pertencem, que não permite que algumas mulheres consigam amamentar. Isso inclui não só as mulheres de renda mais baixa, como as mulheres da classe média tb.
E como disse no meu post, achei a professora corajosa ao dizer que pode se tornar uma armadilha para a mulher, já que poucas pessoas compreendem esta realidade. Principalmente as próprias mulheres.
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Vilma:
Armadilhas temos muitas…
Sem querer vitimizar a mulher, é fato…
A de que temos que educar para que os papais trabalhem e sustentem a familia, a de que somos as rainhas do lar, a de que só mulheres podem, devido a seu “instinto maternal”, ficar com a guarda dos filhos numa possível separação, etc..
Estamos, ainda, a mercê do Patriarcalismo…
Isso é um lugar-comum no discurso feminista?
Não …é a realidade nua e crua…
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Anônimo 3)
Eu sempre levo para a analise do custo beneficio. O nenem que tem mais aleitamento materno vai ficar menos doente, ser mais saudavel e mais produtivo no futuro. Ou seja dará menos custo aos pais e ao Estado.
Dar a possibilidade da mulher amamentar o maior tempo possível só traz beneficios.
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Vilma:
Possibilidade não é condição …
Esse é o problema.
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Anônimo 2)
Anônimo 3, os fatos desmentem a teoria.
Pessolamente, dos bebês k eu vi não serem amamentados, NENHUM ficou mais doente k os outros, ou teve kkr problema na vida (estou me baseando em toda a minha família e boa parte dos amigos).
No entanto, esses bebês tiveram excelente infra-estrutura. Vacinas, boa alimentação, saneamento.
Kestiono a validade da afirmação de k bebês k mamam são mais saudáveis e pegam menos doenças, etc., etc.
K é mais barato?
É.
Mas é só.
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Anônimo 4)
Eu concordo em número, gênero e grau com Anônimo 2. Pois eu também conheço uma penca de gente que foi amamentada, e outra penca que não foi – a verdade é que nenhum desses grupos ficou mais ou menos doente que o outro quando eram crianças, e nem mais ou menos inteligente quando adultos.
Acredito mesmo que essa história toda de “amamentação obrigatória para qualquer mulher que se importe com a saúde do filho” seja pra colocar as mulheres no seu devido lugar!! É mais barato, faz bem, isso concordo. Mas em termos de fornecer mais inteligência ou mais imunidade, não se justifica, não!!
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Vilma:
Negar a importância da amamentação ?
http://www.amigasdopeito.org.br/
Vejam …
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Anônimo 5)
Também conheço muitas crianças que não foram amamentadas e não tiveram problemas de saúde por isso. Eu mesma, por exemplo.
No mais, concordo plenamente com a Safira. Essa história de “endeusar” o leite materno e querer que a mulher dê de mamar por um loooongo tempo serve apenas para reafirmar que a função básica e prioritária da mulher deve ser os filhos, e que os filhos dependem muito mais da mãe.
Parece-me quase uma justificativa para a displicência dos pais na criação dos filhos, afinal, o insubstituível mesmo é a mãe. Eles se quiserem podem apenas botar dinheiro em casa e, se não quiserem, é só “dar no pé” e tá tudo certo. A mulher, “agraciada” com a “beleza” da maternidade que se vire com os filhos que pariu!
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EU:
Eu especialmente não duvido das qualidades do leite materno, isso não impede também que se tenha uma vida sáudavel sem ele. Acredito sim que seria muitissimo melhor
poder amamentar, se houvesse condições e resolvesse alguns outros conflitos muito bem colocados nesta pesquisa qualitativa:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0021-75572003000500004&script=sci_arttext&tlng=pt
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Anônimo 6)
“Porém, tornar as mães que não amamentam as vilãs e irresponsáveis da história é mais fácil do que analisar o contexto sócio-econômico a que pertencem, que não permite que algumas mulheres consigam amamentar. Isso inclui não só as mulheres de renda mais baixa, como as mulheres da classe média tb.”
Bingo!
Pior que quando vi o tópico pensei que ia ter aquela saraivada de machinhos falando que “até o dom de amamentar o bebê elas renegam, em nome dessa igualdade burra!”.
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E assim vai… não vou publicar toda a discussão aqui pq vai continuar e eu não vou dar conta de repassar.
Mari, querida:
Neste post, infelizmente, não cabe nenhum comentário especializado de minha parte. Todavia, procuro ser fiel e acompanhar alguns blogs. Este será mais um deles. Assim também a incentivo a manter o espaço sempre atualizado.
Você recebeu o e-mail com o mapa e as legislações sobre o aborto? Reclame, caso tenha ocorrido alguma falha.
Tornei a publicar a coluna Weekly News. Quando tiver um tempinho dê uma olhada. E sinta-se totalmente à vontade para discordar.
Observei a sua curiosidade sobre 1968. Guardei um “especial” de “O Estado de S.Paulo”, do último domingo, bastante interessante. Levarei à faculdade para você dar uma olhada.
Baci mille.
oi mari,
muito bom teu blog, parabéns!
deixo aqui a sugestão pra você linkar o blog g2g:
http://www.interfaceg2g.org/
um beijo!
Obrigada Marcus,
Amanhã espero ter tempo para comentar o seu blog. Agradeço a “fidelidade” :)
Ah! Agradeço tb pelo jornal separado, se puder guardar até a próxima aula… fiquei interessada em ler.
Não recebi ainda o mapa =(
Vitor!!! Que surpresa, obrigada pela visita!!!
Um elogio de um crítico sempre é bem vindo! Vou linkar! Valeu pela sugestão!!! Aos poucos estou incorporando novos links…
Essa discussão sobre a amamentação “obrigatória” só mostra o quanto a sociedade, mulheres inclusive, vêem a mulher não como pessoa humana, sujeito de direitos, mas como coisa, vaca leiteira. É odiosa a imposição de um “dever” de amamentar, até porque não existe, e não poderia existir. A chantagem covarde e machista de que a “boa mãe” tem que amamentar só é aceita por quem não tem consciência de seu direito de liberdade. Nos termos da Constituição, homens e mulheres sao iguais em direitos e obrigações (art. 5º, inc. I), de modo que, se o homem não amamenta, a mulher não pode ser obrigada a amamentar, se não quiser, não puder. Um governo e uma sociedade que privem um ser humano do direito de fazer uso de seu corpo como bem entenda são de um autoritarismo atroz e merecem ser postos à pique, não merecem respeito algum. A reação de quem diz, “mas você tem que amamentar”, só revela ignorância, machismo, brutalidade, e mais nada.