Aisha Sarwari, que mantém o blog All Things Pakistan, postou hoje: “Violence Against Women: Breaking Down Walls”, onde narra sua experiência e postura durante o momento em que sua vizinha claramente sofria uma violência doméstica.
Ela não teve dúvidas: ficou batendo na porta da casa até atenderem.
“I want to make sure everything is ok, I said (…) She surprised me by her answer, same old she said, battering.”
Duas coisas importantes para se dizer sobre um estado islâmico, como o Paquistão:
1) Al Corão (4:38 ) prevê e aprova a violência contra a mulher, como segue:
“Virtues women are obedient, careful during the husband’s absence, because God of them hath been careful. But chide those whose refractoriness ye hath cause to fear, remove them into beds apart and, scourge them” (Rodwell apud Wade).
2) Nas Conferências Internacionais da ONU na década de 90, e especialmente na da Mulher, em 1995, observou-se que não havia mais separação entre mulheres do primeiro, segundo e terceiro-mundo, mas que estavam todas as participantes no Fórum de ONGs (organizações não governamentais) para lutar pelo reconhecimento dos seus direitos. Apesar do número de ONGs de países islâmicos ser pequeno em comparação com a presença massiva de ONGs dos EUA, e apesar também de ser necessário uma avaliação mais profunda sobre se as ONGs feministas de países islâmicos, presentes no Fórum, tendiam a uma perspectiva “secular”, há um entendimento de que há alguns pontos compartilhados entre feministas islâmicas e seculares a respeito da discriminação de gênero e principalmente da violência doméstica.
Mas a violência doméstica contra a mulher não é “previlégio” somente de países islâmicos. O Brasil é um estado laico, assinou todos os documentos internacionais que protegem as mulheres destas formas de violência, sancionou a Lei Maria da Penha, que permite que agressores sejam presos em flagrante ou tenham a prisão preventiva decretada, mas apresenta alto índice de violência contra a mulher. Segundo o DataSenado de 2007, a cada 100 mulheres, 15 já sofreram violência doméstica no Brasil:
Pesquisa DataSenado – SECS 2007
Pesquisa de OpiniãoForam realizadas 797 entrevistas, por telefone, com mulheres maiores de 16 anos, em todas as capitais brasileiras de acordo com o sistema de cotas proporcionais obedecendo a quantidade de mulheres residentes em cada capital, no período de 1 a 15 de fevereiro de 2007. A margem de erro é de 3,5% para mais ou para menos e o intervalo de confiança estimado é de 95%.
Tabelas Gerais
Pesquisa de Opinião
| De forma geral a Sra. acha que a mulher é tratada com respeito no Brasil? |
Freqüência |
% |
| Sim |
65 |
8,2 |
| Às vezes |
337 |
42,3 |
| Não |
395 |
49,6 |
| Total |
797 |
100 |
| Em qual dos ambientes a seguir a Sra. acha que a mulher é mais desrespeitada? |
Freqüência |
% |
| Na família |
252 |
31,6 |
| Na sociedade |
305 |
38,3 |
| No trabalho |
133 |
16,7 |
| Outros |
97 |
12,2 |
| NS/NR |
10 |
1,3 |
| Total |
797 |
100 |
| A Sra. acha que as leis brasileiras protegem as mulheres contra a violência doméstica? |
Freqüência |
% |
| Sim |
106 |
13,3 |
| Em parte |
326 |
40,9 |
| Não |
355 |
44,5 |
| NS/NR |
10 |
1,3 |
| Total |
797 |
100 |
| A senhora já foi vitima ou sofreu algum tipo de violência doméstica? |
Freqüência |
% |
| Sim |
123 |
15,4 |
| Não |
674 |
84,6 |
| Total |
797 |
100 |
|
|
|
|
| O que motivou a violência? |
Freqüência |
% |
| Uso do álcool |
56 |
45,5 |
| Ciúmes |
28 |
22,8 |
| Falta de dinheiro |
8 |
6,5 |
| Traição conjugal |
6 |
4,9 |
| Uso de drogas |
6 |
4,9 |
| Influência de familiares |
5 |
4,1 |
| Influência das amizades |
3 |
2,4 |
| Outros vícios |
3 |
2,4 |
| NS/NR |
8 |
6,5 |
| Total |
123 |
100 |
|
|
|
|
| Qual foi tipo de violência? |
Freqüência |
% |
| Física |
72 |
58,5 |
| Psicológica |
13 |
10,6 |
| Moral |
11 |
8,9 |
| Sexual |
6 |
4,9 |
| Todas as anteriores |
21 |
17,1 |
| Total |
123 |
100 |
|
|
|
|
| Quem foi o agressor? |
Freqüência |
% |
| Tio/Primo |
1 |
0,8 |
| Pai |
3 |
2,4 |
| Namorado |
5 |
4,1 |
| Companheiro |
15 |
12,2 |
| Marido |
92 |
74,8 |
| NS/NR |
7 |
5,7 |
| Total |
123 |
100 |
|
|
|
|
| A senhora ainda convive com ele? |
Freqüência |
% |
| Sim |
32 |
26,0 |
| Não |
90 |
73,2 |
| NS/NR |
1 |
0,8 |
| Total |
123 |
100 |
|
|
|
|
| Com que freqüência a senhora sofre violência? |
Freqüência |
% |
| Não sofro mais violência |
23 |
71,9 |
| Raramente (de vez em quando) |
6 |
18,8 |
| Semanalmente |
1 |
3,1 |
| Todos os dias |
2 |
6,3 |
| Total |
32 |
100,0 |
Fonte: Senado Federal.
Informações: elgam@senado.gov.br
Aisha Sarwari me fez lembrar que a indignação pode ser manifestada apesar de se parecer ser tão invasivo. Aqui no Brasil mesmo, um grupo de mulheres de Recife inspiradas por uma ação de mulheres colombianas na década de setenta, que saíam às ruas apitando e batendo em panelas para denunciar e protestar contra a agressão feminina, vem desde 2003 inibindo e constragendo agressores.

O projeto apitaço, da ONG feminista Grupo de Mulheres Cidadania Feminina, pretende estimular a reação, por parte de outras mulheres e da comunidade, a ações de violência doméstica ou sexista no momento em que ocorrem, através do uso de apitos em frente ao local do crime, como forma de denúncia do agressor. Apesar de não haver estatísticas, o grupo diz que houve diminuição dos casos de violência e maior estímulo ao enfrentamento das agressões.
Infelizmente estas são somente duas, de várias outras ações, que indicam ainda uma forte cultura machista nas sociedades de todo o mundo. Mas vale a pena ressaltar a coragem que cada uma delas demonstrou ao se solidarizar com as mulheres pertencentes à mesma comunidade.
Bibliografia:
WADE, Ken. Women in Islam. Academic Issues: History, Vol 1, N° 2.